{"id":6718,"date":"2023-05-16T16:50:39","date_gmt":"2023-05-16T14:50:39","guid":{"rendered":"https:\/\/elemelingua.com\/?p=6718"},"modified":"2023-07-07T14:06:49","modified_gmt":"2023-07-07T12:06:49","slug":"mezzofanti-um-hiperpoliglota-fenomenal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/elemelingua.com\/pt-br\/mezzofanti-um-hiperpoliglota-fenomenal\/","title":{"rendered":"Mezzofanti: Um Hiperpoliglota Fenomenal"},"content":{"rendered":"\n<p>Quantos idiomas uma pessoa pode aprender durante a vida? Cinco? Dez? Talvez 100? Algu\u00e9m j\u00e1 foi testado em tantos idiomas? Se voc\u00ea est\u00e1 se fazendo essas perguntas, voc\u00ea deveria conhecer a hist\u00f3ria do Cardeal <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Giuseppe_Caspar_Mezzofanti\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Giuseppe Gaspar Mezzofanti<\/a> (que viveu entre 1774 e 1849).<\/p>\n\n<h2 class=\"has-vivid-cyan-blue-color has-text-color\" id=\"h-an-extraordinary-child\"><strong>Uma Crian\u00e7a Extraordin\u00e1ria<\/strong><\/h2>\n\n<p>Mezzofanti passou a maior parte da vida em Bolonha. Ele tamb\u00e9m foi ordenado padre l\u00e1. Na Universidade de Bolonha, ele trabalhou como professor de L\u00ednguas Orientais e como bibliotec\u00e1rio. E, ent\u00e3o, em 1831 se mudou para Roma, onde se tornou curador da Biblioteca do Vaticano. Em 1838, <meta charset=\"utf-8\"\/>Papa Greg\u00f3rio XVI o nomeou cardeal. Aqui v\u00e3o alguns fatos e informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicos sobre a vida dele<\/p>\n\n<p>Quando Giuseppe Gasparo ainda era um menino, seu pai, Francesco Mezzofanti, era um carpinteiro e sua oficina, onde ele exercia sua profiss\u00e3o, ficava em uma feira-livre. Aparentemente, o local onde o jovem ajudava seu pai ficava em frente \u00e0s janelas de uma escola administrada por um velho padre que ensinava Latim e Grego. O pequeno Giuseppe n\u00e3o conhecia o alfabeto grego, nem mesmo o alfabeto de sua pr\u00f3pria l\u00edngua, mas quando ouvia uma li\u00e7\u00e3o, imediatamente assimilava cada palavra grega e latina. Ele teve sucesso, mesmo sem nunca ter visto livros did\u00e1ticos de Grego ou Latim! Felizmente, o professor descobriu isso. Ele tirou o menino da oficina e permitiu que ele continuasse seus estudos.<\/p>\n\n<h2 class=\"has-luminous-vivid-orange-color has-text-color\"><strong>Ele conhecia algumas dezenas de l\u00ednguas.<\/strong><\/h2>\n\n<p>Quando perguntado quantos idiomas ele conhecia, Mezzofanti, em geral, respondia: &#8220;Cinquenta e o dialeto bolonh\u00eas&#8221;. A maioria dos pesquisadores concorda que eram v\u00e1rias dezenas de idiomas. Com base nas mem\u00f3rias de estrangeiros que conheceram pessoalmente o poliglota, seu bi\u00f3grafo C.W. Russell dividiu os idiomas que ele conhecia em quatro categorias: <\/p>\n\n<p>1) idiomas que o Mezzofanti falava perfeitamente, <\/p>\n\n<p>2) aqueles que ele falava bem, <\/p>\n\n<p>3) aqueles em que ele se comunicava livremente, mas com erros, <\/p>\n\n<p>4 ) idiomas em que ele podia falar apenas algumas frases e iniciar uma conversa. <\/p>\n\n<p>Na primeira categoria, Russell incluiu os seguintes idiomas: alban\u00eas, ingl\u00eas, \u00e1rabe, arm\u00eanio (antigo e moderno), caldeu, chin\u00eas, tcheco, dinamarqu\u00eas, flamengo, franc\u00eas, grego, hebraico, espanhol, il\u00edrio, copta, latim, malt\u00eas, holand\u00eas, alem\u00e3o, persa, polon\u00eas, portugu\u00eas, russo, sueco, turco, h\u00fangaro e italiano. <\/p>\n\n<p>No segundo grupo estavam: sir\u00edaco, ge&#8217;ez, am\u00e1rico, hindustani, guzerate, basco, val\u00e1quio, californiano e algonquiano. Havia mais onze l\u00ednguas na terceira categoria e oito l\u00ednguas na quarta categoria. A essa lista, poder\u00edamos adicionar v\u00e1rios dialetos.<\/p>\n\n<h2 class=\"has-vivid-red-color has-text-color\"><strong>Maravilha Lingu\u00edstica<\/strong><\/h2>\n\n<p>Em 1817, durante sua viagem de retorno de Roma a Veneza, Lord Byron, um dos representantes mais famosos da literatura inglesa da era rom\u00e2ntica, fez uma parada em Bolonha. L\u00e1, ele conheceu o poliglota e mais tarde escreveu sobre Mezzofanti: &#8220;O homem poderia ter vivido na \u00e9poca da Torre de Babel e atuado como um int\u00e9rprete universal l\u00e1&#8230; Eu o testei em todos os idiomas nos quais conhecia um \u00fanico juramento ou frase. E ele, oh destino! Ele me impressionou &#8211; at\u00e9 me chocou, mesmo na minha l\u00edngua nativa, ingl\u00eas!&#8221; De acordo com o padre Gaume, quando em uma conversa com o padre de Bolonha, Byron usou exaustivamente g\u00edrias retiradas do ingl\u00eas, Mezzofanti come\u00e7ou a exibir exemplos sofisticados de g\u00edrias de Londres, anteriormente desconhecidos por Byron, e ainda assim o poeta tinha um vocabul\u00e1rio t\u00e3o rico!<\/p>\n\n<p>Em outra ocasi\u00e3o, um grupo de seminaristas irlandeses viajaram para Roma. Eles decidiram fazer uma parada em Bolonha para se encontrar com o famoso poliglota pessoalmente. Chegaram na cidade no final da tarde. Na manh\u00e3 seguinte, eles tinham a inten\u00e7\u00e3o de seguir em frente, ent\u00e3o decidiram ir direto para a biblioteca da universidade, onde esperavam se encontrar com Mezzofanti. Mas, como era de se esperar, a biblioteca estava fechada naquela hora t\u00e3o tardia, ent\u00e3o o sil\u00eancio reinava nas galerias desertas. Os cl\u00e9rigos vagaram por um longo tempo, procurando algu\u00e9m que pudesse ajud\u00e1-los. Por fim, eles avistaram um homem de apar\u00eancia humilde se aproximando deles. Um deles se adiantou do grupo e, no melhor latim que conseguia falar, pediu a ele orienta\u00e7\u00f5es para chegar \u00e0 biblioteca.<\/p>\n\n<ul><li>&#8211; Gostaria de ver a livraria? O estranho respondeu imediatamente em ingl\u00eas, com sotaque perfeito.<\/li><\/ul>\n\n<p>O cl\u00e9rigo ficou paralisado.<\/p>\n\n<ul><li>&#8211; Por J\u00fapiter, rapazes! &#8211; ele exclamou para seus companheiros. &#8211; \u00c9 o pr\u00f3prio Mezzofanti!<\/li><\/ul>\n\n<p>De fato, era Mezzofanti. Ao saber que eles eram irlandeses, ele se dirigiu a eles na l\u00edngua nativa deles, o irland\u00eas, mas tiveram que admitir que n\u00e3o conseguiam responder. Apenas um cl\u00e9rigo sabia irland\u00eas pelos livros. Mezzofanti iniciou uma conversa com ele sobre supostas analogias entre o irland\u00eas e o gal\u00eas. Para maior clareza, \u00e9 importante salientar que na primeira metade do s\u00e9culo XIX, o ingl\u00eas j\u00e1 havia em grande parte substitu\u00eddo a l\u00edngua nativa da Irlanda, e apenas um quarto dos habitantes da ilha falava irland\u00eas.<\/p>\n\n<h2>Estrangeiros frequentemente submetiam Mezzofanti a v\u00e1rios testes <\/h2>\n\n<p>Em 1819, o Imperador da \u00c1ustria, Francisco I, visitou Bolonha; e antes de ter uma audi\u00eancia com o poliglota, ele cuidou da sele\u00e7\u00e3o apropriada dos membros de sua comitiva &#8211; o ponto era que eles deveriam representar os principais idiomas do Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro. Assim, sucessivamente, alem\u00e3es, h\u00fangaros, tchecos, val\u00e1quios e poloneses aproveitaram a oportunidade para conversar com Mezzofanti. Ele respondeu a cada um deles de forma t\u00e3o fluente e correta que, como seu bi\u00f3grafo recordou, recebeu n\u00e3o apenas aprova\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m admira\u00e7\u00e3o e aplausos.<\/p>\n\n<p>Outro monarca que se encontrou com o poliglota foi o czar Nicolau I da R\u00fassia. Em Roma, o czar conversou com ele em russo e polon\u00eas. Mais tarde, ele confessou que n\u00e3o havia notado nenhum sotaque estrangeiro no discurso do cardeal erudito. Mezzofanti, por sua vez, fez algumas observa\u00e7\u00f5es sobre a pureza e eleg\u00e2ncia do estilo com que o imperador falava polon\u00eas.<\/p>\n\n<p>Al\u00e9m disso, outro teste lhe foi proposto por Bucheron, professor de Literatura Latina na Universidade de Turim. Bucheron pensava que era imposs\u00edvel para um homem focado em tantas l\u00ednguas conhec\u00ea-las profundamente. Ent\u00e3o, quando visitou a biblioteca onde o poliglota trabalhava, ele preparou antecipadamente uma s\u00e9rie de perguntas especializadas sobre o latim. Ele presumiu que as faria casualmente durante a conversa. Conforme planejado, ele desviou rapidamente e de forma habilidosa a discuss\u00e3o inicialmente trivial para quest\u00f5es complexas. Mezzofanti passou no teste de forma brilhante. Ao sair da biblioteca, o professor encontrou o bibliotec\u00e1rio Ferrucci. Este \u00faltimo perguntou a ele sobre a impress\u00e3o que Mezzofanti havia causado nele. &#8220;Per Bacco! (&#8220;Puxa\/caramba&#8221; em portugu\u00eas) Bucheron respondeu espantado. \u2013 Per Bacco! E il Diavolo! (O Bacchus! \u00c9 o diabo!) &#8211; literalmente.<\/p>\n\n<h2 class=\"has-vivid-green-cyan-color has-text-color\"><strong>Qualquer Oportunidade para Aprender \u00e9 Boa.<\/strong><\/h2>\n\n<p>O poliglota usava qualquer oportunidade para aprender novos idiomas. Quando as guerras subsequentes varreram as terras italianas na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo XVIII, Mezzofanti era um jovem padre e servia em hospitais militares, que rapidamente se encheram de soldados doentes e feridos &#8211; vindos de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es europeias. Relembrou mais tarde: <\/p>\n\n<p>&#8211; Eu continuava encontrando h\u00fangaros, eslavos e alem\u00e3es que haviam sido feridos em batalhas ou eram inv\u00e1lidos, e sentia dor pelo destino de cada um, assim como por n\u00e3o poder me comunicar com eles. Eu n\u00e3o podia ouvir as confiss\u00f5es dos cat\u00f3licos presentes, nem reconciliar com a Igreja aqueles que estavam separados dela. Ent\u00e3o, fiz o meu melhor para aprender a l\u00edngua de um paciente, at\u00e9 que eu a estudasse o suficiente para que pud\u00e9ssemos nos entender. <\/p>\n\n<p>Dessa forma, o padre de Bolonha dominou, entre outros idiomas, h\u00fangaro, tcheco e polon\u00eas. Por sua vez, ele aprendeu a l\u00edngua dos ciganos gra\u00e7as a um soldado de um regimento h\u00fangaro, que estava alojado na cidade.<\/p>\n\n<p>Parece que o poliglota tinha uma facilidade instintiva em entender as caracter\u00edsticas estruturais mais importantes das l\u00ednguas, o que permitia que ele aprendesse mais rapidamente e iniciasse suas primeiras conversas. Por outro lado, sua mem\u00f3ria perfeita n\u00e3o esquecia nenhuma palavra, frase, express\u00e3o ou mesmo som que ele tivesse registrado anteriormente. Al\u00e9m disso, quando Mezzofanti estava sozinho, ele costumava pensar em cada uma das l\u00ednguas que conhecia, para que mesmo sem a presen\u00e7a de outra pessoa, ele pudesse desfrutar da pr\u00e1tica da conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n<h2 class=\"has-vivid-purple-color has-text-color\"><strong>Trabalho, simplicidade, paix\u00e3o.<\/strong><\/h2>\n\n<p>Mezzofanti vivia modestamente e dormia apenas algumas horas por dia. Se levantava logo ap\u00f3s as quatro horas, independentemente da esta\u00e7\u00e3o do ano. Ap\u00f3s a ora\u00e7\u00e3o matinal e medita\u00e7\u00e3o, ele celebrava a missa e, em seguida, tomava uma x\u00edcara de chocolate quente ou caf\u00e9. \u00c0s oito horas, ele ministrava sua aula di\u00e1ria na universidade e depois ia para a biblioteca. Na biblioteca, ele se dedicava as suas tarefas. No entanto, muitas vezes era interrompido pelas visitas de curiosos. <\/p>\n\n<p>Ao meio-dia, ele almo\u00e7ava modestamente em seu apartamento no pr\u00e9dio da biblioteca. Depois de almo\u00e7ar, voltava ao trabalho e passava a tarde dando aulas particulares. Seu jantar consistia de algo simples. Ele estudava at\u00e9 tarde da noite e sempre lia na cama por um curto per\u00edodo antes de dormir. Apenas quando era derrubado pelo sono, ele sentia que poderia descansar sem medo de estar desperdi\u00e7ando seu tempo precioso.<\/p>\n\n<p>Mezzofanti \u00e9 considerado um modelo para aqueles que se dedicam ao autodidatismo. Descobriram que at\u00e9 habilidades lingu\u00edsticas excepcionais exigem dedica\u00e7\u00e3o, paci\u00eancia e esfor\u00e7o constante para se desenvolverem. Isso foi revelado por ele no empenho invej\u00e1vel com que coletava e analisava regras gramaticais, dicion\u00e1rios, livros did\u00e1ticos, livros de leitura e outras ferramentas de estudo. Ele tamb\u00e9m aproveitava todas as oportunidades para conversar com estrangeiros em l\u00ednguas estrangeiras. \u00c9 sabido que ele n\u00e3o agia de forma superior nem era propenso a reclamar. Simplesmente focava no seu trabalho.<\/p>\n\n<h2><strong>Como ele fez isso?<\/strong><\/h2>\n\n<p>Mezzofanti n\u00e3o deixou nenhum trabalho no qual explicasse na posteridade seu sistema de estudo eficaz de idiomas. Ainda falta confirmar se isso tudo foi resultado da combina\u00e7\u00e3o de talento e uma excelente mem\u00f3ria, com paix\u00e3o e estudo consistente. No entanto, as palavras que o poliglota disse uma vez ao seu amigo, sr. Libri, podem levantar <meta charset=\"utf-8\"\/>o v\u00e9u de segredo: <\/p>\n\n<p>&#8211; Aprender l\u00ednguas \u00e9 mais f\u00e1cil do que se acredita em geral, porque h\u00e1 um n\u00famero limitado de pontos aos quais se deve prestar aten\u00e7\u00e3o especial em todas as l\u00ednguas; e se algu\u00e9m dominar esses elementos, o restante ser\u00e1 f\u00e1cil de aprender.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quantos idiomas uma pessoa pode aprender durante a vida? Cinco? Dez? Talvez 100? Algu\u00e9m j\u00e1 foi testado em tantos idiomas? Se voc\u00ea est\u00e1 se fazendo essas perguntas, voc\u00ea deveria conhecer a hist\u00f3ria do Cardeal Giuseppe Gaspar Mezzofanti (que viveu entre 1774 e 1849). 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