Quantos idiomas uma pessoa pode aprender durante a vida? Cinco? Dez? Talvez 100? Alguém já foi testado em tantos idiomas? Se você está se fazendo essas perguntas, você deveria conhecer a história do Cardeal Giuseppe Gaspar Mezzofanti (que viveu entre 1774 e 1849).
Uma Criança Extraordinária
Mezzofanti passou a maior parte da vida em Bolonha. Ele também foi ordenado padre lá. Na Universidade de Bolonha, ele trabalhou como professor de Línguas Orientais e como bibliotecário. E, então, em 1831 se mudou para Roma, onde se tornou curador da Biblioteca do Vaticano. Em 1838, Papa Gregório XVI o nomeou cardeal. Aqui vão alguns fatos e informações básicos sobre a vida dele
Quando Giuseppe Gasparo ainda era um menino, seu pai, Francesco Mezzofanti, era um carpinteiro e sua oficina, onde ele exercia sua profissão, ficava em uma feira-livre. Aparentemente, o local onde o jovem ajudava seu pai ficava em frente às janelas de uma escola administrada por um velho padre que ensinava Latim e Grego. O pequeno Giuseppe não conhecia o alfabeto grego, nem mesmo o alfabeto de sua própria língua, mas quando ouvia uma lição, imediatamente assimilava cada palavra grega e latina. Ele teve sucesso, mesmo sem nunca ter visto livros didáticos de Grego ou Latim! Felizmente, o professor descobriu isso. Ele tirou o menino da oficina e permitiu que ele continuasse seus estudos.
Ele conhecia algumas dezenas de línguas.
Quando perguntado quantos idiomas ele conhecia, Mezzofanti, em geral, respondia: “Cinquenta e o dialeto bolonhês”. A maioria dos pesquisadores concorda que eram várias dezenas de idiomas. Com base nas memórias de estrangeiros que conheceram pessoalmente o poliglota, seu biógrafo C.W. Russell dividiu os idiomas que ele conhecia em quatro categorias:
1) idiomas que o Mezzofanti falava perfeitamente,
2) aqueles que ele falava bem,
3) aqueles em que ele se comunicava livremente, mas com erros,
4 ) idiomas em que ele podia falar apenas algumas frases e iniciar uma conversa.
Na primeira categoria, Russell incluiu os seguintes idiomas: albanês, inglês, árabe, armênio (antigo e moderno), caldeu, chinês, tcheco, dinamarquês, flamengo, francês, grego, hebraico, espanhol, ilírio, copta, latim, maltês, holandês, alemão, persa, polonês, português, russo, sueco, turco, húngaro e italiano.
No segundo grupo estavam: siríaco, ge’ez, amárico, hindustani, guzerate, basco, valáquio, californiano e algonquiano. Havia mais onze línguas na terceira categoria e oito línguas na quarta categoria. A essa lista, poderíamos adicionar vários dialetos.
Maravilha Linguística
Em 1817, durante sua viagem de retorno de Roma a Veneza, Lord Byron, um dos representantes mais famosos da literatura inglesa da era romântica, fez uma parada em Bolonha. Lá, ele conheceu o poliglota e mais tarde escreveu sobre Mezzofanti: “O homem poderia ter vivido na época da Torre de Babel e atuado como um intérprete universal lá… Eu o testei em todos os idiomas nos quais conhecia um único juramento ou frase. E ele, oh destino! Ele me impressionou – até me chocou, mesmo na minha língua nativa, inglês!” De acordo com o padre Gaume, quando em uma conversa com o padre de Bolonha, Byron usou exaustivamente gírias retiradas do inglês, Mezzofanti começou a exibir exemplos sofisticados de gírias de Londres, anteriormente desconhecidos por Byron, e ainda assim o poeta tinha um vocabulário tão rico!
Em outra ocasião, um grupo de seminaristas irlandeses viajaram para Roma. Eles decidiram fazer uma parada em Bolonha para se encontrar com o famoso poliglota pessoalmente. Chegaram na cidade no final da tarde. Na manhã seguinte, eles tinham a intenção de seguir em frente, então decidiram ir direto para a biblioteca da universidade, onde esperavam se encontrar com Mezzofanti. Mas, como era de se esperar, a biblioteca estava fechada naquela hora tão tardia, então o silêncio reinava nas galerias desertas. Os clérigos vagaram por um longo tempo, procurando alguém que pudesse ajudá-los. Por fim, eles avistaram um homem de aparência humilde se aproximando deles. Um deles se adiantou do grupo e, no melhor latim que conseguia falar, pediu a ele orientações para chegar à biblioteca.
- – Gostaria de ver a livraria? O estranho respondeu imediatamente em inglês, com sotaque perfeito.
O clérigo ficou paralisado.
- – Por Júpiter, rapazes! – ele exclamou para seus companheiros. – É o próprio Mezzofanti!
De fato, era Mezzofanti. Ao saber que eles eram irlandeses, ele se dirigiu a eles na língua nativa deles, o irlandês, mas tiveram que admitir que não conseguiam responder. Apenas um clérigo sabia irlandês pelos livros. Mezzofanti iniciou uma conversa com ele sobre supostas analogias entre o irlandês e o galês. Para maior clareza, é importante salientar que na primeira metade do século XIX, o inglês já havia em grande parte substituído a língua nativa da Irlanda, e apenas um quarto dos habitantes da ilha falava irlandês.
Estrangeiros frequentemente submetiam Mezzofanti a vários testes
Em 1819, o Imperador da Áustria, Francisco I, visitou Bolonha; e antes de ter uma audiência com o poliglota, ele cuidou da seleção apropriada dos membros de sua comitiva – o ponto era que eles deveriam representar os principais idiomas do Império Austro-Húngaro. Assim, sucessivamente, alemães, húngaros, tchecos, valáquios e poloneses aproveitaram a oportunidade para conversar com Mezzofanti. Ele respondeu a cada um deles de forma tão fluente e correta que, como seu biógrafo recordou, recebeu não apenas aprovação, mas também admiração e aplausos.
Outro monarca que se encontrou com o poliglota foi o czar Nicolau I da Rússia. Em Roma, o czar conversou com ele em russo e polonês. Mais tarde, ele confessou que não havia notado nenhum sotaque estrangeiro no discurso do cardeal erudito. Mezzofanti, por sua vez, fez algumas observações sobre a pureza e elegância do estilo com que o imperador falava polonês.
Além disso, outro teste lhe foi proposto por Bucheron, professor de Literatura Latina na Universidade de Turim. Bucheron pensava que era impossível para um homem focado em tantas línguas conhecê-las profundamente. Então, quando visitou a biblioteca onde o poliglota trabalhava, ele preparou antecipadamente uma série de perguntas especializadas sobre o latim. Ele presumiu que as faria casualmente durante a conversa. Conforme planejado, ele desviou rapidamente e de forma habilidosa a discussão inicialmente trivial para questões complexas. Mezzofanti passou no teste de forma brilhante. Ao sair da biblioteca, o professor encontrou o bibliotecário Ferrucci. Este último perguntou a ele sobre a impressão que Mezzofanti havia causado nele. “Per Bacco! (“Puxa/caramba” em português) Bucheron respondeu espantado. – Per Bacco! E il Diavolo! (O Bacchus! É o diabo!) – literalmente.
Qualquer Oportunidade para Aprender é Boa.
O poliglota usava qualquer oportunidade para aprender novos idiomas. Quando as guerras subsequentes varreram as terras italianas na última década do século XVIII, Mezzofanti era um jovem padre e servia em hospitais militares, que rapidamente se encheram de soldados doentes e feridos – vindos de várias nações europeias. Relembrou mais tarde:
– Eu continuava encontrando húngaros, eslavos e alemães que haviam sido feridos em batalhas ou eram inválidos, e sentia dor pelo destino de cada um, assim como por não poder me comunicar com eles. Eu não podia ouvir as confissões dos católicos presentes, nem reconciliar com a Igreja aqueles que estavam separados dela. Então, fiz o meu melhor para aprender a língua de um paciente, até que eu a estudasse o suficiente para que pudéssemos nos entender.
Dessa forma, o padre de Bolonha dominou, entre outros idiomas, húngaro, tcheco e polonês. Por sua vez, ele aprendeu a língua dos ciganos graças a um soldado de um regimento húngaro, que estava alojado na cidade.
Parece que o poliglota tinha uma facilidade instintiva em entender as características estruturais mais importantes das línguas, o que permitia que ele aprendesse mais rapidamente e iniciasse suas primeiras conversas. Por outro lado, sua memória perfeita não esquecia nenhuma palavra, frase, expressão ou mesmo som que ele tivesse registrado anteriormente. Além disso, quando Mezzofanti estava sozinho, ele costumava pensar em cada uma das línguas que conhecia, para que mesmo sem a presença de outra pessoa, ele pudesse desfrutar da prática da conversação.
Trabalho, simplicidade, paixão.
Mezzofanti vivia modestamente e dormia apenas algumas horas por dia. Se levantava logo após as quatro horas, independentemente da estação do ano. Após a oração matinal e meditação, ele celebrava a missa e, em seguida, tomava uma xícara de chocolate quente ou café. Às oito horas, ele ministrava sua aula diária na universidade e depois ia para a biblioteca. Na biblioteca, ele se dedicava as suas tarefas. No entanto, muitas vezes era interrompido pelas visitas de curiosos.
Ao meio-dia, ele almoçava modestamente em seu apartamento no prédio da biblioteca. Depois de almoçar, voltava ao trabalho e passava a tarde dando aulas particulares. Seu jantar consistia de algo simples. Ele estudava até tarde da noite e sempre lia na cama por um curto período antes de dormir. Apenas quando era derrubado pelo sono, ele sentia que poderia descansar sem medo de estar desperdiçando seu tempo precioso.
Mezzofanti é considerado um modelo para aqueles que se dedicam ao autodidatismo. Descobriram que até habilidades linguísticas excepcionais exigem dedicação, paciência e esforço constante para se desenvolverem. Isso foi revelado por ele no empenho invejável com que coletava e analisava regras gramaticais, dicionários, livros didáticos, livros de leitura e outras ferramentas de estudo. Ele também aproveitava todas as oportunidades para conversar com estrangeiros em línguas estrangeiras. É sabido que ele não agia de forma superior nem era propenso a reclamar. Simplesmente focava no seu trabalho.
Como ele fez isso?
Mezzofanti não deixou nenhum trabalho no qual explicasse na posteridade seu sistema de estudo eficaz de idiomas. Ainda falta confirmar se isso tudo foi resultado da combinação de talento e uma excelente memória, com paixão e estudo consistente. No entanto, as palavras que o poliglota disse uma vez ao seu amigo, sr. Libri, podem levantar o véu de segredo:
– Aprender línguas é mais fácil do que se acredita em geral, porque há um número limitado de pontos aos quais se deve prestar atenção especial em todas as línguas; e se alguém dominar esses elementos, o restante será fácil de aprender.





